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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Nós e as Troikas


Há um problema claro com o actual governo. Bem, na verdade há vários problemas com o actual governo. Mas há um que dificilmente se consegue explicar: o facto de o governo ver todas as casas a arder, mas como o fogo ainda não chegou à sua casa, ele mantem-se quietos, a ver se o fogo chega ou não há nossa casa. Mais, imaginando que o governo é uma casa com primeiro andar, o rés do chão está em chamas, mas como estão todos a dormir no primeiro andar, quando acordarem com o cheiro a queimado, será tarde demais. 

O INE divulgou recentemente que no segundo trimestre deste ano o PIB caiu 3,3%, para um valor muito próximo de 1999. Que aconteceu em 1999? Tivemos a brilhante ideia de nos juntarmos ao euro, sem estarmos minimamente preparados para isso. Hoje pagamos essa factura, juntamente com outros países que não estavam preparados para entrar no Euro (Grécia e Espanha). O nosso PIB está em queda há 6 trimestres seguidos 



Há alguma razão para ainda hoje não termos Suécia e Dinamarca no Euro. Porque os países nórdicos percebem de economia, e conseguiram ver, a longo prazo, que a moeda mais tarde ou mais cedo ia estar por um fio, ao deixarem entrar países sem uma economia sólida e robusta. Poderão dizer que a Finlândia está no euro. Pois está, e só Jyrki Katainen sabe o quanto o país deve estar arrependido de ter entrado. Na Suécia a não entrada no euro foi decidida por plebiscito, já na Dinamarca foi por referendo. Num país como Portugal, a entrada no euro em 1999 teve como consequência imediata a descida do PIB, e o mesmo se passa hoje, quando o euro está por um fio. 

Depois há o problema do nosso desemprego. Cálculo que num futuro não muito distante, a notícia será sobre alguém que tem emprego, mais do que sobre alguém que esteja desempregado. Segundo o INE há aproximadamente 829.600 desempregados (15%), num número a subir a cada actualização de estatística. Mas isto é um número falso, muito falso! Porque este é o número de pessoas a receberem o subsidio de desemprego. E aqueles que já não o recebem? Bem, nesse caso temos em Portugal 1.300.000 de desempregados, ou seja 22,8% de taxa REAL de desemprego. E qual foi até agora as medidas tomadas pelo governo? Foi apenas uma: emigrem e não voltem mais! 



Comparativamente ao segundo trimestre de 2011, foram extintos quase 205 mil empregos, e há mais 152 mil desempregados. Por dia, foram extintos 561 postos de trabalho e  416 novos desempregados. POR DIA! 
A isto juntamos o abandono, desinvestimento e privatização do Serviço Nacional e Saúde e da Educação. Tudo para que o governo consiga ser o menino bonito dos olhos das Troikas. Preferem um país em ruínas, a um país que renegoceie a dívida, de maneira a garantir crescimento económico e diminua o fosso social. Mais...as imposições de outras Troikas obrigam Portugal a depender do estrangeiro em sectores onde já foi auto-suficiente (pesca e leite).  

Tem o governo vergonha de dizer BASTA, acabar com importações estúpidas e substituí-las por produção nacional. Tem o governo vergonha de aumentar salários e não reduzi-los, pois só assim há aumento real do poder de compra. 



Ainda sobre a educação. Diz ou não diz a Constituição que a escolaridade obrigatória deve ser gratuita? Diz, pois claro! Em vez disso há propinas a pagar nesse ensino obrigatório, além das centenas de euros gastos nos manuais escolares. E durante anos, vários governos e vários presidentes da república foram olhando e colocando no fim da lista de coisas a fazer. Os manuais escolares fazem parte do ensino, tal como todo o material didático, e por isso mesmo deveriam ser gratuitos.  

Alguns dizem "ah...mas isso sai muito caro". Sabem então que se os manuais escolares fossem gratuitos, representaria apenas 1.2% de todo o orçamento do Ministério da Educação? Sabem que por causa desta teimosia, os sucessivos governos acabam por pagar muito mais do que os 1.2% em programas de combate ao abandono escolar. Dessem os manuais escolares a todos os alunos e os programas de combate ao abandono escolar deixariam de ser práticamente necessários. 

Segundo as próprias editoras escolares, as famílias dos 1.4 milhões de alunos vão gastar 80 milhões de euros por esses manuais escolares. Diz o INE que um típico agregado familiar (pai, mãe e filho) gasta por ano em educação, uma média de 894€. Onde ouvimos falar disto? Que se faz para parar isto?  Que imprensa fala disto? 

Pois é, é o costume...

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